Essa é a hora e a vez de Laos

Não vimos nenhuma criança sendo servida em restaurantes por aqui

Foi sem dúvida uma das melhores surpresas da viagem até agora. Um país que muita gente nem sabe que existe. Laos não estava no nosso itinerário inicial, mas como está no meio de outros três países (Tailândia, Cambodia e Vietnã) que fazem parte do nosso roteiro, resolvemos pesquisar e saber se valeria à pena uma visita. A cada pesquisa pela internet e leitura em guias turísticos, Laos ia se tornando mais que um retalho de viagem para se tornar um dos países mais interessantes. Além da beleza natural e dos diferentes aspectos culturais que são os principais atrativos do Laos, sentimos a estranha sensação de que as horas e dias por aqui são mais lentos e demorados. As pessoas não tem pressa e a trajetória às vezes parece ser mais importante que o fim, principalmente se envolver socialização e festa. Afinal, pra que trabalhar tanto se eles podem se divertir agora ou mesmo durante o trabalho?

Uma curiosidade é que o Laos junto com a China, Vietnã e Cuba são os últimos países que se consideram comunistas no mundo. Apesar da bandeira vermelha com a foice e o martelo nas casas e em edifícios do governo, a ausência de grandes lojas e de cadeias de fast-food, a vida no Laos não nos pareceu tão comunista. Carros da Mercedes-Benz, Honda e principalmemte Toyota estão em toda parte, coca-cola é vendida em toda esquina, cada um tem seu próprio negócio e não parece que as pessoas estão sofrendo nenhuma opressão por parte de um governo de partido único e sem liberdade de expressão. Para nós não foi tão diferente de outros países pobres subdesenvolvidos e capitalistas que visitamos.

Típico habitante local passeando pelo Laos

Quase do tamanho da Grã Bretanha, mas só com 6.5 milhão de pessoas, Laos tem a mesma população do Maranhão e seu PIB é o menor de toda a Ásia com 8.3 bilhão de dólares ou 20% do PIB do Ceará. O país tem todas as características de uma nação pobre, rural e com pouca infra-estrutura.

Existe um ditado famoso nessa região que fala um pouco como o povo de cada país opera: “no Vietnã se planta o arroz, no Cambodia eles assistem crescer e no Laos eles escutam crescer”. Pode ser um pouco maldoso, mas chega até a ser poético sob outro ponto de vista. A verdade é que o trabalho por aqui é um meio e não o objetivo. Vimos sim, muita gente dando duro trabalhando nos verde-fluorescente campos de arroz espalhados pelo país de norte a sul. Porém nossa impressão foi de ver muita gente conversando, tomando café ou uma cervejinha a qualquer hora do dia.

Arroz, arroz e mais arroz

O país é essencialmente budista. O comunismo parece não ter afetado bastante a religiosidade das pessoas. Os templos e pagodas estão em todas as cidades, mesmo nas mais pequenas. Garotos de várias idades devem em algum momento viver nesses templos por alguns anos, juntos com outros pequenos monges. Todos os dias vestem o mesmo chamativo roupão laranja, estudam e rezam. A filosofia durante esse período é de total abstinência material. Nos templos eles também aprendem a meditar e tentam atingir o legendário estado de nirvana. Para uma comunidade ocidental isso pode parecer um dos piores castigos possíveis para crianças e adolescentes. Mas para muitos desses meninos é uma oportunidade de sair das pequenas vilas no meio do nada e se mudar para uma cidade maior. Lá, eles tem a oportunidade de estudar e até aprender inglês, caso sua nova morada seja uma cidade turística. Para nós turistas, assistir aos monges vestidos com suas túnicas laranjas passeando pelas ruas são um espetáculo à parte e dão um ar exótico e visualmente romântico que é a cara de tantos países budistas, e do Laos em especial.

Passeio diário, descalços, em busca de um pouco de comida pela manhã

É difícil acreditar que esse país ainda existe no mapa. Sem saída pro mar e rodeado de potências mundiais e regionais, Laos foi atacado por todos os seus vizinhos no decorrer dos séculos. China, Vietnã, Cambodia e até a distante França já ocuparam esse longo país que é banhado na sua totalidade pelo mais importante rio da região: o Mekong. Depois de muito penar, tornou-se uma nação soberana no mundo pós 2a Grande Guerra. Diante de tantos ataques no passado, eles acabaram incorporando tradições de todos esses países, formando um complexo caldeirão cultural . A língua é parecida com o tailandês, mas com um alfabeto totalmente diferente. Fisicamente eles são parecidos com os chineses, principalmente na região norte. O tradicional chapéu vietnamita é parte da vestimenta diária nos campos de arroz. E é fácil ver a mais recente colonização através dos grandes casarões franceses, os boulevares arborizados, as baguetes servidas nos cafés e as pessoas jogando petanque nos bares depois do trabalho.

Templos budistas em Luang Prabang

A paisagem montanhosa no norte nos impressiou bastante. Na parte central as montanhas de calcário, grutas e cascatas são o maior atrativo. O sul é bem mais plano e menos interessante e a grande estrela é mesmo o rio Mekong que fica bem maior e mais largo.

À medida que o tempo passava,  a população se tornava um dos melhores tesouros da viagem. Um povo muito simples, humilde, sempre sorrindo e muito curioso sobre o que nós achamos sobre o país deles. Aqui, nós raramente precisamos barganhar para comprar coisas. O preço é justo e não é inflacionado para turistas como nos outros países do sudeste asiático.

Fartos mercados no Laos

A comida era ótima, principalmente no norte e centro do país. Pratos que nem sabíamos que existiam como o apimentado molho com pele seca de búfalo, a alga de rio frita com sésame e a sensacional salada da flor da bananeira, nos mostraram como eles são inventivos na cozinha. Vamos também sentir saudades dos nossos melhores amigos nas tardes quentes de verão: os sucos de frutas tropicais cheios de gelo picado. HUmmmmmm!

A melhor cerveja - Beer Lao

Claro que Laos tem uma lenda própria entre os viajantes desse distante país. Beer Lao é a marca da mehor cerveja que provamos na Ásia. A versão escura ainda é a melhor e uma garrafa de 600 mL custa entre US$ 1-2. A moeda local se chama kip e um dólar vale 8.000 kip. Inglês é falado somente nas grandes cidades turísticas. Nas pequenas vilas e mercados fica mais complicado de se comprar uma passagem de ônibus, negociar o quarto de hotel ou comer num restaurante. Mas nós é que deveríamos aprender a língua local, não é verdade? Preços são bem baixos e um prato no almoço custava entre 2-3 dólares. Um quarto de hotel muito simples para mochileiro era sempre menos de US$ 15 com ar-condicionado e WiFi.

A vida parecia um filme em cima de uma moto no Laos

Acabamos ficando 17 dias em um país que não pretendíamos nem visitar. A verdade é que viemos na hora certa. Acredito que o país vai mudar bastante à medida que se torne mais ocidental e capitalista. A China também vem investindo bastante em troca de matéria prima. Infelizmente esse país com esse enorme potencial para eco-turismo provavelmente será invadido pelo investimento externo que invariavelmente extirpa os recursos naturais de países subdesenvolvidos em troca do prometido sonho de crescimento econômico. Um país com tantos atrativos, mas que logo, logo deve mudar. A hora de se visitar Laos é agora.

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One Response to Essa é a hora e a vez de Laos

  1. Telma says:

    Marcelo, viajei na sua descrição sobre a diversidade cultural e as belezas naturais do Laos. Relato maravilhoso, parabéns!

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