Estrada dos Himalaias

Annapurna II

“Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé”

Luiz Gonzaga

No dia 24 de maio por volta das 10 da manhã nós finalmente chegamos num lugar chamado Thorong La que é conhecido como “a passagem mais alta do mundo”. Deduzimos que “a passagem” é o caminho onde é possível simplesmente andar entre duas montanhas, nesse caso os picos do Thorung com 6144 m e Yakwakang com 6482 m. Cada um tem o dobro da altura do nosso Pico da Neblina, o mais alto do Brasil. Acordamos às 5 da manhã num frio abaixo de zero, sem aquecedor, só com o saco de dormir e cobertor. Quando abrimos a porta do quarto para ir ao banheiro comunitário, já tinha gente pronta com as mochilas nas costas para as últimas 2 horas de subida por 4 Km até o topo . Pra mim foi um dia ainda mais especial, pois celebrar meu aniversário depois de 9 dias caminhando pelos Himalaias foi um presente e tanto.

Campos de arroz no decorrer do percurso

Tal: uma linda cidade

Os Himalaias formam a cordilheira mais alta do mundo que vai do Afegasnistão até o Butão, passando pela Índia e Nepal e desenha a fronteira do sul da China com esses países . Foi formado milhões de anos atrás quando o subcontinente indiano se chocou contra a placa continental asiática. Só pra se ter uma idéia, as 100 maiores montanhas do mundo estão nessa região e o Nepal está deitado bem no meio da cordilheira. É exatamente esse o motivo que gente do mundo inteiro vem fazer turismo no Nepal. As caminhadas estão entre as melhores do planeta, com incríveis vistas dos picos. Diante de tantas possibilidades, fica até difícil escolher qual é a melhor ou a mais apropriada pro que a gente gosta. Existem também as famosas escaladas desses picos que são motivo de filmes, livros e documentários. A trilha (não estou falando da escalada) até o acampamento base do Everest, por exemplo, é uma das mais conhecidas, mas tem muito “nome”. Depois de muito tempo pesquisando na internet, decidimos seguir pro trajeto mais tradicional e conquistar as Annapurnas.

Namaste

O mapa do circuito inteiro

Annapurna é uma “pequena” cadeia de montanhas dos Himalaias localizada na parte oeste do Nepal que tem a trilha mais conhecida do país. O trajeto em forma de U invertido liga os pequenos povoados e vilas que seguem o vale de dois grandes rios entre enorme montanhas . Parece loucura, mas turistas vêm a essa região por várias décadas caminhar mais de 250 Km em cerca de 20 dias no que é comumente chamado de: circuito das Annapurnas. Recentemente o governo do Nepal construiu uma estrada de terra ao longo da trilha e várias pessoas dizem que não vale mais a pena fazer o circuito. Afinal, não é muito prazeroso andar ao lado de jipes jogando poeira na sua cara. Felizmente descobrimos pela internet a existência de caminhos alternativos que evitariam a estrada e ficamos bem empolgados diante das possibilidades. Devido aos problemas intestinais e ao meu braço deslocado passamos mais tempo em Katmandu do que o esperado e decidimos fazer somente a primeira metade da caminhada, totalizando 122 Km (Fortaleza a Fortim) em 11 dias.

Olha o galã da novela das 8...

Hotel Hil-Ton

No nosso primeiro dia de viagem saímos de Katmandu numa van lotada em direção a Bhulbule (perto de Besisahar), um pequeno povoado no início da trilha. Percurso bem penoso por 8 horas numa estrada pra lá de ruim. Fizemos o check-in no posto da entrada do parque e andamos uma hora até chegar numa cidadezinha chamada Nadi, onde dormimos. A primeira noite nos hospedamos no “famoso” hotel Hil Ton. O dono do estabelecimento era um pequeno hindu de 21 anos super simpático que queria saber de tudo sobre a gente e disse: “nós não temos o melhor establecimento, mas somos os mais hospitaleiros”. E ele estava correto, fomos muito bem tratados. O preço do quarto foi de US$ 0.50/noite, mas tínhamos que jantar e tomar o café da manhã no “hotel”. Parece mentira, mas o total que pagamos de manhã por tudo foi o equivalente a US$ 11. Foi dessa forma durante toda nossa estadia nas Annapurnas. A tradição de séculos dessa região consiste em acolher o andarilho na sua casa de graça e o hóspede paga pela comida e chá. Ainda hoje as pousadas são chamadas de “casas de chá” pelos nepaleses. No decorrer do percurso pagamos no máximo 2 dólares por noite pela hospedagem, em compensação gastávamos mais com a comida que consumíamos, cujo preço era proporcional à altura da montanha. Durante todo o circuito gastamos em média 25 dólares/dia/pessoa.

As marcas da trilha alternativa

A incrível montanha lapidada pela geleira, que um dia esteve por aqui

Feliz depois do café da manhã

A trilha das Annapurnas é uma aula de geografia onde a medida em que subíamos de altitude víamos os diferentes ecossistemas gerados pelo clima . Se você “guglar” Himalaias, provavelmente verá somente fotos de neve, pedra e gelo. Entretanto, uma das melhores partes da viagem foi exatamente a mudança da paisagem no decorrer do trajeto. Começamos com plantações de arroz e milho em um clima bem tropical ao longo do vale do rio Marsiandi . A trilha segue rio acima e a vegetação muda completamente, a temperatura cai e nos brinda com uma imensa floresta de pinheiros. Em seguida aparecem os picos de neve e lindas montanhas, algumas com formatos super interessantes por causa da erosão das geleiras. Subindo mais ainda a vegetação começa a ficar mais rasteira, com mais arbustos, os rios bem mais pequenos e menos caudalosos até que no final era realmente só pedra, terra, neve e gelo. Tão interessante e até dramático foi a descida na parte mais seca no final, onde praticamente nunca chove, já que nenhuma nuvem é capaz de passar a barreira de mais de 6.000 a 8.000 metros das Annapurnas.

Guerra das Rosas no nosso hotel

Mas o circuito não é só beleza natural. É também uma experiência cultural intensa onde nós podemos observar e conversar com as comunidades ao longo da trilha. No início as pequenas vilas são de típica tradição hindu. No hotel Hil Ton, nossa primeira estadia, havia um recém-nascido de 5 dias de idade que estava prestes a finalmente receber seu nome, que ninguém sabia, já que os sacerdotes são os únicos que podem dar o nome à criança. Na manhã da celebração, os hindus da casta Brahmim (sacerdotes), já estavam preparando tudo pra esse dia especial, que consistia inclusive em dar urina de vaca ao bebê. Loucura? Talvez, mas não se esqueça que aqui a vaca é um animal sagrado. Fiz uma comparação com a água benta do catolicismo. Infelizmente somente hindus podiam participar da cerimônia e seguimos viagem logo depois do café da manhã.

No alto, com muito vento badalando as bandeirinhas

As inscrições religiosas nas pedras

Na segunda metade do caminho era bem evidente a influência do budismo do Tibete na forma como as mulheres se vestiam e se adornavam com piercings enormes em vários lugares do rosto. Eles geralmente plantam trigo e criam animais mais adaptados ao frio como ovelhas,carneiros e yaks (um primo da vaca com muito cabelo).

Uma das muitas vilas no meio do caminho

Uma das partes que mais gostamos foi ver as onipresentes bandeirinhas coloridas e as brancas estupas budistas adornando a já incrível paisagem do Nepal. Na entrada de cada povoado era de praxe ter um muro de roldanas com inscrições religiosas. Rodá-las tem o mesmo efeito de rezar os mantras budistas. Bem prático! A população também escreve passagens religiosas ou desenha em grandes blocos de pedra e deixa como registro ao longo dessas paredes. Enfim, tanto rastro humano no decorrer da trilha que fica difícil escrever sobre tudo que vimos. Como sempre acabamos conhecendo muita gente legal, nepaleses ou turistas no decorrer do trajeto, que tornaram nossa aventura muito mais especial e divertida.

Hora do descanso pra um chazinho de gengibre

Resolvemos dividir o relato em dois pra não cansar muito. No próximo a gente fala sobre nossa rotina no circuito, as casas de chá, o mal das montanhas, a chegada ao topo e meu aniversário a mais de 5.000 metros de altura. Por enquanto o link de algumas das fotos.

Depois dessa floresta de pinheiro era só gelo pedra

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One Response to Estrada dos Himalaias

  1. Telma says:

    Muito show o relato da primeira parte rumo ao topo do mundo e ainda mais ansiosa
    para saber como foi a comemoração da chegada aos 6000 metros no dia do seu níver.
    Bjos

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