DOR E DRAMA EM KATMANDU, provavelmente a semana mais marcante da nossa viagem.

Nas ruas de Thamel, Katmandu

Símbolo budista

Tava tudo pronto. Mochilas certinhas, equipamento alugado ou comprado pra duas semanas de caminhadas no roteiro mais tradicional do Nepal: as montanhas da Annapurna, uma espécie de tesouro pros entendidos em caminhadas. Mas na manhã do início da aventura eu tive que cancelar pois fiquei com uma diarréia braba o dia todo. 3 dias antes foi o Jason com o mesmo problema. Na verdade, Katmandu não foi aquele esplendor de viagem quando se trata da saúde da gente. Vou explicando melhor no decorrer desse longo e dolorido relato.

Buda está sempre olhando

Chegamos em Katmandu, capital do Nepal depois do mais longo vôo das nossas vidas. Saímos de Santiago do Chile e chegamos em Bangkok 55 horas depois. Barateamos nosso vôo em cerca de U$ 5.000 indo por Nova Iorque. Ao invés de cruzar o Pacífico sul indo pra Oceania e de lá pra Ásia fizemos algo que nem em sonho imaginávamos. Voltamos pros EUA por 4 horas e de lá subimos em direção ao norte, atravessamos o Ártico e finalmente fomos pro sul do extenso continente asiático. Acabamos atravessando os 4 maiores países do mundo (EUA, Canadá, Rússia e China) até chegar na Tailândia. Foram ao todo 200 graus de latitude cruzados até chegar em Bangkok onde descansamos por alguns dias até seguir num outro vôo em direção ao Nepal. Muito tempo perdido, mas temos 5.000 dólares a mais pra gastar.

Macacos Resus, nos templos

Kama Sutra nos templos. Imagine só pornografia na Capela Sistina

Katmandu é uma das cidades mais desorientadoras que já estive na vida. Uma explosão pros sentidos e bem caótica mesmo aos olhos de um latino-americano. Assim que saímos do Aeroporto já podíamos presenciar a loucura do tráfego, que nem sequer tem semáforo pra por um pouco de ordem. As ruas na sua maioria de asfalto esburacado tem uma cobertura de poeira que esvoaça a cada carro que passa tornando o ar bem difícil de respirar. A cidade quase nao tem calçadas ou elas são tão pequenas que até parece que estou em algum canto no interior do Ceará, onde todo mundo anda no meio da rua. Por causa disso os carros e motos estão constantemente buzinando pra avisar que a rua é deles. Pra complicar, pequenas charretes-bicicletas estão competindo pra transportar os moradores, junto com pessoas vendendo de tuuuuudo que você possa imaginar no meio da rua, além das vacas, búfalos e carneiros passeando pelas ruas que mais parecem estar numa fazenda e não numa cidade de 2.5 milhão de pessoas. Pra coroar com ainda mais intensidade o cheiro de cocô de vaca, junto com a poluição dos carros, o esgoto que escorre do lado e os incensos queimando em tudo quanto é parte fazem de Katmandu um lugar inesquecível por tantos motivos que não cabe aqui fazer mérito ou juízo do que é certo ou errado. O mais interessante é que parece existir uma ordem que só eles mesmo conseguem entender e não vimos nenhum acidente acontecendo enquanto estivemos por aqui.

Na beira do rio Bagmati, as piras pra cremar os mortos

Mas apesar de tudo isso, Katmandu é uma das poucas cidades do mundo onde se pode andar e ver estátuas dos séculos V ou VI que em qualquer outro lugar estariam num museum muito bem guardadas. Os pequenos templos e altares estão espalhados em todos os cantos e nós podemos ver o Hindusimo e Budismo fazendo parte da vida das pessoas desde as tenras horas da manhã. As religiões aqui são mais do que correntes espirituais, elas fazem parte de como a sociedade funciona de fato.

Pagoda no centro de Katmandu

O centro de Katmandu é tombado pela UNESCO e tem prédios bem grandes em forma de Pagodas. Nós ficamos boquiabertos ao saber que essas estruturas arquitetônicas que são a cara do oriente são na realidade de origem nepalesa. O complexo que mais nos impressionou foi Pashupatinah. No mais importante templo hindu do país, assistimos os rituais para cremar os corpos ao logo das piras do sagrado rio nepalês Bagmati, uma epécie de Ganges por aqui. Ao longo do gigantesco templo nós vimos homens “sagrados” em busca da salvação, muita gente rezando e realizando suas rotinas espirituais (pujas), uma multitude de pequenos altares cheios de oferendas, lindas estruturas arquitetônicas de centenas de anos, vários com os famosos desenhos eróticos do Kama Sutra, macacos resus correndo pra cima e pra baixo e muitas vacas (animal sagrado) à beira do rio. Era tanta informação que podíamos ficar horas por lá, só observando e tentando entender como isso funciona, tentando criar ordem e paralelos com a nossa bitolada cultura ocidental. Felizmente contratamos um guia para traduzir o que podíamos ver, ouvir e cheirar e tudo ficou pouco mais compreensível.

Camping por uma noite na beira do rio

Katmandu não se resume a hinduísmo, afinal Sidarta Gautama (Buda) nasceu numa cidade chamda Lumbini a alguns Km da capital. Budismo é a segunda religião mais importante do país. Visitamos alguns templos que pareciam mais calminhos comparados com os templos hindus. Era legal ver vários monges com suas roupas vermelhas e laranjas, além de muitos devotos caminhando em sentindo horário ao redor das imensas torres douradas sobre os olhos do Buda sempre com as famosas bandeirinhas coloridas (pra afungentar espíritos maus) que são a cara do Nepal e que me lembrava muito pé-de-moleque, aluá e os famosos anavam e anarriê.
Mas voltando ao DRAMA. No nosso terceiro dia em Katmandu (dia 9 de maio) decidimos viajar pra fazer um passeio das corredeiras de um rio conhecido daqui chamado Bhote Koshi. Estávamos super entusiasmados pra fazer essa aventura de 2 dias junto com outros 6 turistas que conhecemos somente no dia da saída. O primeiro dia foi bem tranquilo e foi interessante pra pegar a manha do que teríamos que fazer no dia seguinte já que as corredeiras seriam bem mais perigosas com muitas pedras rio abaixo.

Taking Care of You Siblings is Universal

Tudo estava indo muito bem (apesar da imúndicie do rio) até 3/4 do segundo dia. Já perto do final em uma das corredeiras, perdemos o controle e fomos empurrados pela correnteza pra cima de uma pedra enorme e o barco começou a virar pro lado direito. Nosso guia, desesperado, ainda tentou resolver o problema pedindo pra que nós fossemos pro lado esquerdo do barco. Tarde demais. O barco virou e nesse processo segurei a corda de segurança do barco e não soltei. Grande erro. Minha mão foi pra trás e meu húmero pra frente. Todos caíram na água no meio de uma corredeira enorme. Quando subemergi do caldo não conseguia mover meu braço esquerdo por causa da dor que era grande. Cheguei às margens do rio nadando com um só braço e era óbvio que algo estava muito errado . Palpei meu ombro esquerdo e meu braço (húmero) não estava no lugar e sim na parte da frente do meu ombro. Diagnóstico: ombro deslocado (luxação).

O braço tá um "pouco" fora do lugar

Depois de ser tirado da água com a ajuda do Jason e de outras pessoas, pude fazer uma avaliação melhor da situação. A dor era grande e sabia que quanto mais rápido resolver isso melhor pra mim. Depois de achar um turista como voluntário tentei ensinar como por meu braço de volta, lá mesmo na margem do rio. Depois de 3 tentativas pra lá de excruciantes resolvi pedir pra eu ser levado prum médico, já que eu mesmo não era de muita serventia. Ficamos esperando a van onde viemos na beira da pista. 5 minutos depois uma turista da suiça parou o carro e perguntou se precisávamos de ajuda. Ela disse que achava melhor eu não ser atendido numa clínica local e que me daria carona até um hospital pra estrangeiros em Katmandu. Foram as 4 horas mais longas da minha vida. Pra complicar a viagem, além das estradas esburacadas que aumentavam mais ainda minha dor, os nepaleses decidiram entrar em greve por 2 dias e bloquear todas as estradas por onde seguíamos. Parecia que tava num filme. Transportado por gente que nunca tinha visto na vida, parando a cada 20 minutos por manifestantes nervosos com pedaços de pau na mão ameaçando quebrar o carro onde estávamos e uma dor infernal que não passava.

Doeu, mas tá tudo beleza agora

Depois de chegar na clínica, chorei de dor e alívio ao mesmo tempo. Fui atendido prontamente por 3 médicos. Fizeram raio-X, me deram várias injeções de narcóticos e relaxantes musculares até que finalmente a dor diminuiu e meus músculos relaxaram o suficiente pra que com uma simples manobra meu ombro voltasse pro lugar onde nunca deveria ter saído. Resultado foi uma dorzinha chata por vários dias, braço imobilizado por 2 semanas, a possibilidade de ter outros deslocamentos futuros, uma grande propensão à artrite e a sempre possibilidade de cirurgia se muita coisa der errado no futuro. Mas tudo estava bem ao sair da clínica. Ainda meio dopado segui em direção a agência de viagem pra encontrar com o Jason que veio separado de mim. Meu anjo da guarda, a suiça que na sua vida anterior tinha sido enfermeira, mas que hoje era instrutora de Yoga em San Francisco, continou comigo e foi um AMOR DE PESSOA.

Pózinho colorido pra pintar o mundo

Os dias seguintes foram de um merecido descando, muita conversa sobre prós e contras de seguirmos em frente com o planejado. No fim, apesar da diarréia e do ombro lascado decidimos seguir em frente e partir pra organização da nossa mais ambiciosa aventura: a conquista dos Himalaias, hehehe. Nossos primeiros dias em Katmandu não foram dos melhores, mas as semanas seguintes foram de arrepiar o espinhaço de qualquer um.
Pra mais fotos, clique aqui!

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2 Responses to DOR E DRAMA EM KATMANDU, provavelmente a semana mais marcante da nossa viagem.

  1. Lia Campos says:

    Putz, Marcelo!
    Ainda tô com o coração batendo forte imaginando seu aperreio e dor. Que coisa!
    Cuidado com esse braço.
    bj
    Lia

  2. Telma says:

    Ainda estou tremendo! Parece que estou com sezão.

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