Impressões fajutas de um brasileiro-estrangeiro

Isso é Brasil (Trio Esperança)

Terra de sonho, de praia de muita beleza e sol…
Nunca vi terra igual
Campos, florestas e rios com tanta beleza assim, nunca vi nada igual…
Peixe no mar,
Um batuque no fundo do bar
Um vaqueiro com força e com fé.
Banhos de garapé
Maravilha essa gente cantando, dançando mexendo etc e tal.
Nunca vi gente igual (Nunca vi nada igual)
Morena da cor de canela, tempero de sol e sal.
Nunca vi nada igual
Maracatu, candomblé, chimarrão, vatapá.
Quero, quero azulão sabiá.
Tudo é um só lugar
E quem já viu, vai virar Brasileiro…

Foz do Iguacu

Finalmente saímos do Brasil, foram 133 dias do final de novembro até o comecinho de abril. Uma viagem pra nunca mais se esquecer . De carro foram 12.000 Km em dois meses, vendo paisagens, revendo amigos e fazendo outros tantos amigos pelo meio do caminho. Aqui vai um pouco de uma análise fajuta e curta desse país enorme, cuja saudade é igualmente proporcional.

Aqui está o mapa do nosso trajeto nesse tempo.

Chapada da Diamantina

Alter do Chao - Pará

Fernando De Noronha

O Brasil é o país do 5o lugar. Somos o quinto em população, em área e parece que no fim de 2012 vamos ser a quinta economia do mundo. Pena que não somos tão grandes em outros números como desigualdade social, PIB per capita, baixa corrupção e nível de educação.

Quem será que vai virar um rapaz desses botos?

O cartão postal do Brasil

Mas o Brasil mudou e mudou pra melhor. Acho que depois de centenas de anos de exclusiva visão extrativista, o povo brasileiro parece estar num passo bem lento de mudança em sua filosofia de como se organizar como povo. A idéia extrativista que se originou com a colonização portuguesa ainda persegue nosso modo de operar. O princípio é tirar o máximo proveito, o mais rápido possível e que se lixe o próximo ou o meio ambiente. Afinal se eu não fizer, vai ter outro que vem, faz e desmantela tudo do mesmo jeito.

Catedral em Fortaleza

Brasilia

Acai e Farinha em Belém

E isso não parece ser um problema da falta de educação formal, pois vi e ouvi histórias de comportamento de gente com curso superior e da classe rica que só podem ser explicadas por uma conjuntura cultural, talvez até por tradição. O povo brasileiro se gaba de ser um povo quente, amigo, sorridente, festeiro, mas no dia-a-dia pode não ser muito gentil, é muitas vezes mal educado e não pensa duas vezes antes de lhe passar a perna. Não acredito que as pessoas pensam nas consequências que o famoso “jeitinho brasileiro” trazem. Afinal isso tudo é tradição mesmo, faz parte da cultura.

As águas mais claras que vimos foi em Bonito

Mas ia dizendo que o Brasil melhorou e existem alguns aspectos onde vi claramente essa melhora. Do ponto de vista econômico, os números não mentem. Existe muito mais riqueza no Brasil de hoje do que em 2001, quando me mudei pros EUA. É óbvio que o brasileiro tem muito mais do que tinha antes. Mas isso é comum também em outros países da América Latina que visitamos, com a exceção de Cuba. Afinal as pessoas tem celulares, geladeiras, TVs planas, carros e/ou motos além de casa pra morar e o mais importante: não falta comida na mesa. E comparando com outros países da região, me pareceu que existe mais riqueza sendo distrubuída para a população mais baixa. Também outro ponto que parece ter mudado bastante é a possibilidade de uma pessoa da classe baixa buscar melhor educação e trabalho do que seus pais. Fico feliz de saber que está mais difícil pra classe média encontrar empregada doméstica e babás, principalmente quando há necessidade de que elas durmam em casa. Isso é sinal de que as condições de vida das pessoas de classe mais baixa estão melhorando e elas só vão fazer esse trabalho sendo bem pagas, como é o caso em países desenvolvidos.

Carnaval em Olinda, nós estávamos prontos pra festa

Vale dizer que é ainda mais nítido o acúmulo de riqueza nas classes média e alta onde o poder de compra e de ter uma infinidade de serviços é exponencialmente maior quando comparado com que se via há 10-15 anos atrás. Claro que às custas do aumento do gasto de energia, do consumo desenfreado e do aumento da poluição. A preocupação é que o país está reproduzindo o modelo americano, onde o consumo é quase o motivo principal da existência: CONSUMO LOGO EXISTO.

A tradição extrativista centenária atrelada ao sedutor apelo consumista do mercado é uma combinação perigosa não só do ponto de vista comunitário das relações sociais como também pode trazer consequencias ecológicas onde o meio ambiente sente diretamente os efeitos desse processo.

Uma das cervas do Brasil

Acho que aí entra o papel do Estado regulando as relações interpessoais e de instituições com a população para que tudo não termine em guerra. E isso me leva a pensar sobre um outro aspecto que geralmente está relacionado a economia: a violência. Existia uma expectativa que os índices de violência melhorariam depois do crescimento econômico, mas isso não aconteceu em vários locais. Acho que em muitos, como Fortaleza até pioraram. Em 2010 houve mais de 1.200 homicídios na cidade de Fortaleza, 3 vezes mais que Chicago,  que tem 300.000 habitantes a mais que Fortaleza (cidade, não região metropolitana). Esse é um problema muito mais complexo e como gostaria de uma mesa de bar pra conversar sobre esse assunto. Mas uma coisa é certa, acho que a onda de isolamento social entre as classes sociais contribui e muito pra que a violência continue.

Feijão tropeiro, gordura = gostosura

Tráfego é um outro problema que está virando a cabeça dos brasileiros e sem dúvida afeta diretamente a vida de todos. Das capitais que visitamos, de Manaus a Brasília todas tinham engarrafamentos infernais. E a solução desse problema só é uma: investimento pesado em transporte público de qualidade. Afinal, não é possível que todo indivíduo tenha um carro ou moto pra seu próprio transporte. Mas acho que as montadoras de carro e usineiros não ficariam muito satisfeitas com esse investimento público.

No geral fico feliz de ver o Brasil trilhando um caminho certo, embora tortuoso. Depois de tantos anos olhando somente para os ricos, finalmente existem politicas estruturais com objetivo de melhorar a vida das classes mais pobres da sociedade. Talvez a classe rica ainda não veja, mas isso vai no futuro ter um impacto profundo na forma como a população brasileira vive em comunidade. O grande salto de real impacto pro desenvolvimento do Brasil seria investir seriamente nos primeiros 12 anos de educação do cidadão. Quero saber quem vai realmente levantar uma bandeira que não traz benefício político imediato, mas que seria a verdadeira construção de um país pras décadas futuras.

Mas tirando de lado esse exercício sociológico barato, sem dúvida o Brasil é um país belíssimo. É realmente gigante e ficamos ainda mais impressionados com o interior do Brasil, que segue sendo uma segunda opção diante de um litoral tão extenso e belo. A grande surpresa foi a Chapada da Diamantina, mas outros lugares marcantes foram Bonito, Alter do Chão, Iguaçu, Pantanal e o litoral Rio-Santos além de Noronha, é claro. O Brasil foi também o país mais caro onde estivemos até agora, mas isso não é novidade também. Nosso “budget” foi pras nuvens, apesar da imensa ajuda da família e de amigos com alojamento.

Sunset in Alter do Chao

Parece até que falo mais mal do que bem, mas a verdade é que depois de 10 anos morando fora, pela primeira vez pensei em voltar a morar no Brasil. Os motivos são muitos e não caberia escrever num blog, mas fico feliz de ver mudanças e apesar de muitos desejarem mudanças mais rápidas, o processo vai ser lento e o mais importante é que os primeiros passos já foram dados. Pra ver algumas das nossas fotos e vídeos dos últimos 4 meses rodando por esse Brasilzão cliquem nos links.

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3 Responses to Impressões fajutas de um brasileiro-estrangeiro

  1. Anderson Porto says:

    Marcelo,
    Parabens pelo artigo! A visao de quem ve de fora sempre enxerga nuances nao percebidas anteriormente.

    Abraco

  2. Lia Campos says:

    Excelente, Marcelo.
    Só acrescentando que, em relação à violência, ao problema social junta-se a impunidade generalizada e a corrupção.
    Bj

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